domingo, 11 de outubro de 2009

A Vida Intelectual, por Sertillanges - I

Lembro aos confrades que esta é uma obra eminentemente católica, dotada de um espírito religioso e temente a Deus. Eu mesmo não sou cristão, tampouco católico (em razão d’algumas divergências antropológicas que procuro resolver), mas admiro e glorifico o seu respeito à verdade, a sua filosofia, a sua postura e as suas realizações – como quem admira o seu melhor amigo, embora tenha ressalvas a lhe fazer. Portanto, aviso, desde já, que não suprimi os trechos contendo concepções claramente católicas, pois o meu objetivo aqui não é agradar nem desagradar a B ou a C, que dirá ser contrário à simbologia e à apologia cristã, já que a atesto plenamente na medida em que se apresenta como um belíssimo louvor à verdade.

Construí este blog com o intuito de divulgar tudo o que exprima as grandes verdades filosóficas, e vocês verão no próprio resumo abaixo que esta é uma postura plenamente de acordo com a vida intelectual responsável, o que com toda sinceridade busco seguir. Dito isto, às pessoas que se sintam de alguma forma ofendidas por considerarem que a vida intelectual deva prescindir de qualquer analogia com a filosofia católica ou com verdades de fé em geral, recomendo somente que estudem. Aliás, um ótimo começo seria a obra universal e magnífica que intitula este post.

Assim, prossigamos.

Baseei este resumo na edição inglesa The Intellectual Life, que contém uma introdução pelo padre James Schall. N’algumas citações eu lanço mão da versão em português que se encontra na internet, mas não a recomendo especialmente, pois ela contém diversos erros de tradução, além da inexplicável supressão de algumas partes importantes da obra original.


A introdução do padre James Schall nesta edição inglesa cita um dos tantos ditos sapientíssimos de Chesterton: “não há assuntos desinteressantes, somente pessoas desinteressadas”.

Alerta-nos ainda que não devemos esquecer jamais o fato de que uma vida intelectual também pode ser uma vida perigosa. Agostinho já nos ensinava que o mais corrupto dos vícios provém não da carne mas do espírito.

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O prefácio de Sertillanges

Segundo Sertillanges, quando o intelectual pensa corretamente, segue Deus passo a passo, mesmo que inconscientemente; ele não segue sua própria fantasia. Nada do que é pensado pela mente se encontra fora do real (recomendo ler meus posts sobre o argumento ontológico).

Todo trabalho intelectual começa por um momento de êxtase. Só depois, num segundo momento, é que a construção de idéias entra em cena. Possuimos como que duas memórias: a memória “fechada”, do dia-a-dia, e a memória “descobridora”, da inspiração.

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Sertillanges sobre a auto-descoberta.

Escutar a si mesmo envolve a mesma dificuldade de se escutar a Deus. O pensamento criativo, nosso verdadeiro self, só nos é revelado no silêncio d’alma, ou seja, na exclusão de pensamentos tolos que levem à indulgência, à distração pueril. No afastamento das sugestões que nossas paixões desordenadas vivem murmurando, nossas escolhas práticas e sociais também passam pelo momento de êxtase, longe do self ambicioso e passional. Acima de tudo, devemos nos submeter à verdade e ao seu veredito.

Os grandes homens não têm medo do que falam a respeito deles, pois, mesmo na solidão, sentem não estarem sozinhos. Esta é verdadeira humildade. Devemos nos regozijar no que nos foi dado, não no que está além de nosso poder.

Quando o mundo não gosta de você, ele se vinga de você; se acontece dele gostar de você, ainda assim ele se vinga, o corrompendo. O único recurso é trabalhar distante do mundo, tão indiferente de seus julgamentos quanto pronto para lhes servir”. (é melhor talvez que ele o rejeite)

Diante da superioridade dos outros, só há uma atitude honorável: ter orgulho. Nietzsche é quem dizia: “nunca ignore, nunca se recuse a enxergar o que pode ser pensado contra o seu próprio pensamento”. Ora, como ser duro consigo mesmo, tão favorável à auto-perfeição, sem um amor incondicional pela verdade, sem a devoção à verdade?

Sobre a investigação exageradamente abrangente, diz Sertillanges (e ele ainda retomará o assunto lá adiante):

A estrela à qual se olha por muito tempo e muito intensamente pode, por isso mesmo, cintilar cada vez mais hesitantemente até que desapareça do céu.

Sobre evitar a leitura rápida e o mergulho precoce num tema:

Mesmo ao custo do sofrer, a criação é um prazer; e, além da criação, a veneração de uma idéia assim que ela vier.

A razão não pode fazer tudo. Seu último passo é reconhecer suas limitações (Pascal). Se a razão ambiciona o mundo, a fé dá a ela a infinitude.

No seu prólogo, informa-nos Sertillanges, como um bom neo-tomista, que a base para sua obra é a famosa carta De Modo Studendi, d’autoria de São Tomás de Aquino, que expõe breves e sólidos conselhos para a vida de estudos.

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CAP. 1 – A VOCAÇÃO INTELECTUAL

I – O intelectual é um consagrado

A Vocação é diferente da simples leitura e expressão. A Vocação equivale a penetrar, a manter um esforço metódico, a buscar atingir a plenitude do desenvolvimento intelectual. A vida intelectual é muito recompensatória, mas exige um esforço inicial do qual poucos são capazes. O intelectual é como um atleta da mente.

A verdade só serve aos seus escravos

Confie sim no seu gosto pessoal, ressalta Sertillanges, pois o nosso perfil caracteriza e revela nossa Vocação. Toda vida de um homem individual está simbolizada em um momento característico da vida de Cristo.

Não prove infidelidade a Deus, ao seus irmãos e a si mesmo ao recusar um chamado sagrado.

Não entre na vida intelectual por ambição ou vaidade. A ambição ofende a verdade eterna ao subordiná-la a si.

Mas para aceitar o fim você também deve aceitar os meios. Querer possuir um bem sem pagar por ele é o desejo universal! (dos covardes e fracos) Quantos jovens com a pretensão de se tornarem trabalhadores não desperdiçam miseravelmente seu tempo, seu vigor, seu ideal! Ou não trabalham (não têm tempo!) ou trabalham mal, sem jamais saber para onde estão indo ou querem ir.

Só que o gênio é fruto de uma paciência organizada e inteligente. O gênio é a conjugação entre o ascetismo especial e a virtude heróica de cada dia, uma síntese que resulta no que Sertillanges chama de “solidão apaixonada”.

Se consentirem a esta dupla oferta, digo-lhes em nome de Deus da verdade para não perderem a coragem. (...) A liberdade apresenta armadilhas que as rigorosas obrigações podem nos ajudar a evitar.

O que é o amor pela sabedoria? Santo Tomás de Aquino, ao vislumbrar de longe a belíssima cidade de Paris, disse ao seu companheiro: “irmão, eu daria tudo aquilo pelo comentário de Crisóstomo sobre São Mateus”.

Sertillanges pergunta ao leitor jovem: você tem duas horas por dia, e pode abdicar delas e sofrer para aproveitá-las? Se sim, tenha fé. Se não, descanse na quietude da certeza.

Aprenda a utilizar este precioso tempo. Mergulhe todo dia da sua vida na fonte que sacia e renova sua sede. Vale um sacrifício extra, vale por ter a capacidade e a missão de levar mais homens à verdade. Sertillanges nos diz que, seguindo este curso, um dia teremos espaço entre as nobres mentes.

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II – O intelectual não permanece sozinho

Não importa o quão sozinho ele esteja materialmente, não deve ceder ao encanto do individualismo. O isolamento esteriliza e paraliza. Ao ser só uma alma, se deixa de ser um homem. Trabalhar o humano é trabalhar para o homem, para suas necessidades.

Um cristão ativo, ressalta Sertillanges, deve viver constantemente no universal, na história.

Toda verdade é prática; a mais aparentemente abstrata, a mais enclausurada, é também prática. Toda verdade é vida, direção, um caminho levando ao fim do homem.

Disse Jesus Cristo: “Sou o caminho, a verdade, a vida.” Somos parte de Jesus, seu legado em palavra.

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III – O Intelectual pertence ao seu tempo

Deus nos colocou em um determinado lugar e tempo. O nosso espírito deve ser insistente e corajoso, mas sem o mero diletantismo. Evitar o amor pelo passado, que não reconheça a presença de Deus. Ora, Deus não envelhece, todas as eras lhe pertencem.

Em especial sobre o séc. XX, diz Sertillanges (a 1ª edição do livro é da década de 30):

Estamos em um trem disparando à frente na velocidade máxima, sem sinalizações visíveis. O planeta não sabe para onde está indo.

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Cap. 2 – AS VIRTUDES DO INTELECTUAL CATÓLICO

I – As virtudes comuns

Não basta a inteligência, pra começo de conversa. É preciso estar em harmonia com seus princípios de caráter moral.

Não se confia em vendedores de jóias que vendam pérolas e que não usem nenhuma.

Toda força isolada em um todo equilibrado torna-se vítima de seus arredores. A vida é uma unidade. Como imagens de Deus, que é trinitário, somos ser, razão e amor.

Diga-me o que você ama, eu lhe direi o que você é.

A verdade visita aqueles que a amam virtuosamente. Por isso o homem de gênio intelectual que é mais completo em si mesmo já é um homem virtuoso. Num vislumbre de socratismo, diz Sertillanges que as raízes da verdade e da bondade estão no mesmo solo, se comunicam. Ao praticar a verdade conhecida, damos valor à verdade ainda desconhecida. Santo Tomás de Aquino é quem disse:

A virtude chamada verdade é uma certa verdade pela qual um homem em palavra e em ato mostra a si mesmo como ele é.

Não pensamos somente com a inteligência. O corpo também precisa estar bem cuidado, não devemos negligenciá-lo. Se Platão já afirmava que “pensamos com toda nossa alma”, Sertillanges diz que “pensamos com todo o nosso ser”. Assim, também devem as virtudes morais ser exercitadas. Controlar nossas paixões é despertar em nós mesmos o sentido do universal. A pureza da alma leva à pureza do pensamento. A moral está atada à verdade. Participar do universal é participar do Espírito Santo e ser levado até a Verdade.

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II – A virtude apropriada ao intelectual

Ser estudioso. Como diria Aristóteles, a virtude é o que se encontra no meio-termo entre dois extremos. Logo, entre a negligência e a vã curiosidade, há a estudiosidade.

O homem que entrega seu conhecimento à ambição deixa de ser um intelectual. Ele não deve deixar de cumprir com seus bons atos face à atividade intelectual, de outro modo, abalaria um próprio fundamento da verdade: a virtude. Já o homem que sacrifica os seus estudos a todas as atividades do dia-a-dia é só um diletante.

Dizia São Tomás em sua De Modu Studendi:

Altiora te ne quae sieris(não busque o que está alem do seu alcance)(...) Volo ut per rivolus, non statim, in mare eligas introire (quero que você decida ir ao mar pelas correntes, não diretamente a ele)

Sabemos que a natureza busca exceder os seus poderes, aperfeiçoar-se, e que o homem é quem nela mais aspira à perfeição. Mas não tenha pressa. Comece pelo começo, sem pular etapas.

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III – O espírito de oração

Oratione vacare non desinas (nunca desista de orar)
— São Tomás de Aquino

Todo estudo é um estudo da eternidade.
— Van Helmont

A ciência é o conhecimento das causas, dos elos. Por debaixo desta atividade, está a Verdade Suprema. Uma verdade particular é só um símbolo, um símbolo real, um “sacramento do absoluto”. O real é uma manifestação de Deus porque criado por Ele.

A inteligência só faz a sua parte por completo quando realiza uma função religiosa, isto é, quando venera a verdade suprema em suas aparências menores e dispersas.

Quando o estudo contempla inteligíveis fixos, torna-se um “estudo da eternidade”. Há verdades cuja comparação com as montanhas as torna efêmeras como a brisa.

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IV – A disciplina do corpo

A mente só pode comunicar através do corpo. Aristóteles já dizia que uma boa constituição corporal corresponde à nobreza da alma. Por isso, recomenda-nos Sertillanges que não desprezemos a ciência da higiene e da ergonomia, porque até elas enriquecerão a sua atividade filosófica.

Respire muito oxigênio. Trabalhe numa posição que dê liberdade para os pulmões e não comprima outros órgãos. Exercite-se. Descanse. Tenha cuidado com a alimentação. Não durma nem muito pouco nem em excesso. Exercite a sua sabedoria corporal, como já recomendava São Tomás.

O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. A mortificação dos sentidos é requerida para o pensamento e só ela nos pode colocar naquele estado clarividente de que falava Gratry. Se obedecer à carne, estará a caminho de ser carne, quando deveria ser todo espírito.

Ora, por que Aquino era chamado de Doctor Angelicus? Será porque ele era dotado de asas? Não, mas porque nele tudo se subordinava ao pensamento genial e santo, porque ele era todo alma, “uma inteligência servida por órgãos” (e jamais o contrário).

Nos próximos dias, seguiremos com a exposição desta obra. Obrigado.

domingo, 4 de outubro de 2009

Aristóteles nos convida à Filosofia - II

Voltemos à obra de Aristóteles.

O próximo trecho do seu Protreptikos separado por Jâmblico trata do propósito, do fim, do telos, aquilo que, sabemos, terá uma importância basilar na construção do prédio aristotélico.

Diz o estagirita que há no mundo as coisas causadas (com propósitos) e as coisas fortuitas (indeterminadas). Entre as coisas causadas, há aquelas causadas pela natureza e as causadas pela atividade mental (inteligíveis, idéias) ou pela arte (techne). O fim da arte é buscar “completar o serviço” da natureza (o Aristóteles da Metafísica dirá que “realiza potências”) (p. ex., alguns grãos germinam naturalmente, enquanto outros precisam de uma atitude do homem para tal)

Bem, e qual o nosso próposito, a razão de nossa causa? Para Pitágoras, por exemplo, é “observar os céus”, e para Anaxágoras “observar as coisas nos céus, as suas estrelas, a lua, o sol”.

O propósito é sempre superior ao criado. O propósito natural é o último a ser completamente finalizado no desenvolvimento. Primeiro, o físico; depois, a alma (forma?).

Coisas amadas em razão de algo – necessidades e causas conjugadas

Coisas amadas por si – bens no sentido estrito

A maioria dos homens desconhece tal distinção. É por isso que os legisladores precisam muito mais de filosofia que os doutores, pois ela se fundamenta no conhecimento da natureza e da verdade – do justo, do bom, etc. As outras profissões tiram seus princípios da experiência, enquanto o filósofo olha para as coisas mesmas, não imitações (mais platônico do que Aristóteles jamais terá sido!). O conhecimento do filósofo é contemplativo, mas nos permite construir tudo a partir dele. A filosofia é como a abóboda celeste, que serve de firmamento às estrelas mais brilhantes (no post sobre o Convivio de Dante falaremos mais disso - em breve).

Viver em potência (capacidade) – “pessoas que sonham”

Viver em atualização (utilização) - “pessoas que acordam” (metáfora presente na República!)

Ora, se viver é ter existência,

Fica claro que uma pessoa sábia certamente existe no mais alto grau e sentido apropriado, e principalmente quando exercita sua faculdade e realmente contempla o que é mais cognoscível das coisas que existem.

Como diz Aristóteles, contentar-se enquanto se bebe uma bebida é diferente de contentar-se com a bebida em si mesma:

Qualquer atividade é ou prazerosa ou dolorosa não porque sentimos prazer ou dor em sua presença, mas porque somos afligidos ou agradados por sua presença.

Assim, negando o hedonismo, Aristóteles afirma que a vida prazerosa só é prazerosa na medida em que a vida causa prazer a quem a tem, e não as suas particularidades. Viver prazerosamente é diferente de saber que a vida é em si prazerosa, de que ela é um bem, e viver constantemente com esta noção é quase que uma exclusividade dos (verdadeiros) filósofos.

Como reitera Jâmblico:

Na filosofia, ser bom e ter sucesso são duas coisas que se separam, e a primeira é superior à segunda.

As palavras finais de Aristóteles no fragmento são para ecoar pela eternidade:

Se o sucesso (puro e simples) é o desejo (puro e simples), a sabedoria já se provou ser a coisa mais desejável. O sucesso é, desta forma, a prática da filosofia.

(...)

Dai que todos devem praticar a filosofia, se puderem; pois ou isso é a vida perfeitamente boa ou, para ser breve, está acima de toda a causas dela em nossas almas.



O terceiro fragmento.

À parte dos dois fragmentos anteriores que já tratamos, havia na Antigüidade duas referências indiretas sobre o Protreptikos.

Um informava que Aristóteles havia dedicado a obra a Themison, rei do Chipre.

Em sua Anthology, João Stobeu cita Theodorus (desconhecido), que cita uma seleção do filósofo cínico Teles, o qual cita o estóico Zenão, que por sua vez menciona a resposta do cínico Crates à primeira leitura do Protreptikos (ufa!). Nela, Crates contradiz, bem ao estilo cínico, a primeira idéia que Aristóteles mencionava, a de que a riqueza e a postura são vantagens para o estudo filosófico (uma afirmação dirigida ao abastado rei Themison). Diz-se que Crates leu tal passagem para seu sapateiro e que depois disse “acho que devo escrever uma exortação a você, Philiscus” – Crates considerava que os ricos tinham muito menos tempo sobrando em suas vidas para poderem praticar a filosofia (e ele não deixava de estar certo!).

A segunda referência trata-se de um argumento protréptico não incluso nos outros fragmentos, um argumento que foi muito modificado através da trajetória que teve nas mãos de doxógrafos e comentaristas do mundo antigo.

Alexandre de Afrodisia, o mais célebre comentarista de Aristóteles de sua época (séculos II e III d.C.) (muito estimado pelos árabes posteriormente), em seu “Comentário sobre os tópicos de Aristóteles” explica a uma determinada altura como termos ambíguos e equívocos podem tanto provar quanto refutar certas proposições. Como exemplo, cita ele um argumento de Aristóteles no Protrético no qual ele diz que não se pode dizer que não se deve filosofar porque isso é investigar a própria questão, e isso é filosofar. Tanto a filosofia quanto a investigação são naturais ao ser humano, e inseparáveis.

Por sua vez, o scholar armeniano David, “o invencível”, no séc. V d.C, em seu próprio Prolegômena à Filosofia expande o argumento de Aristóteles:

Se uma pessoa diz que você não deveria ser um filósofo, teria usado uma demonstração pela qual refutou a filosofia. Mas se ela usou uma demonstração, então está claro que ela filosofa. Pois a filosofia é a mãe das demonstrações.
Assim, qualquer demonstração de que não se deve filosofar é absolutamente falsa.

O professor de filosofia neoplatônico Elias, no séc. VI d.C., em suas aulas introdutórias também parafraseava o argumento:

Se você deve filosofar, você deve filosofar, e se você não deve filosofar, então você deve filosofar. Portanto, em qualquer caso, você deve filosofar. Pois se a filosofia existe, então somos positivamente obrigados a filosofar, pois ela realmente existe. Mas se ela não existe realmente, mesmo assim somos obrigados a filosofar o porquê da filosofia não existir realmente. Mas ao investigar estaremos filosofando, pois a investigação é a causa da filosofia.


Mais ou menos na mesma época, Olimpiodoro, o Jovem - provevelmente o último platônico de Alexandria - oferece a sua versão do argumento em seu comentário sobre Alcebíades (um diálogo platônico também no gênero protréptico), numa forma mais condensada.

Finalmente, um comentarista desconhecido deixou uma nota marginal em um manuscrito do Analíticos Anteriores com a sua versão do argumento, e parece que essa foi justamente a que ficou para a posteridade. Apreciemos:

Se você deve filosofar ou não deve filosofar, você deve filosofar. E, de fato, ou você deve filosofar ou não deve filosofar. Portanto, em qualquer caso, você deve filosofar.


Sim, amigos, devemos filosofar.

Urgentemente.


Querem saber como começar, o que fazer, como estudar?

Aguardem, pois, no próximo post, exporemos um resumo do tratado de Sertillanges sobre a vida intelectual.

domingo, 27 de setembro de 2009

Aristóteles nos convida à Filosofia

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Hoje comentaremos sobre uma das obras mais influentes e famosas da filosofia no mundo antigo, e que hoje infelizmente pouco se discute: o Protreptikos, ou, como se convencionou chamar, Convite à Filosofia.

Trata-se de uma obra peculiaríssima que mostra uma face de Aristóteles muitas vezes desconhecida. Se o bojo do legado aristotélico põe às claras uma mente lógica, supinamente racional, um discurso por vezes muito árido, e uma oposição ferrenha a grande parte do legado de seu mestre, o Protreptikos, por sua conta, retira das sombras um outro homem, quase o seu antípoda. Vemos nela o perfil de um vigoroso discípulo de Platão, um apologeta sangüíneo do conhecimento universal, um devoto da sabedoria que evidencia o seu amor através de uma retórica límpida e fluída, um jovem akademikos que, se ainda não apresentava a originalidade peripatética que viria ser a realização maior do pensamento ocidental, já demonstrava um apego tão entusiasmante à verdade que acabaria por influenciar grandes personagens da filosofia.

Já na antigüidade, sabia-se que o Crates, o cínico de Tebas, teria lido a obra para um sapateiro, contando-lhe que originalmente ela fora dirigida a Themison, um rei do Chipre.

Cícero, no primeiro século antes de Cristo, a adapta e a expande, compondo o seu Hortensius, um convite para os grandes cidadãos de Roma à filosofia grega.

Cinco séculos depois, a realização do orador romano é lida pelo jovem Santo Agostinho, a quem influencia definitivamente para a vida filosófica - que viria a ser exemplar.

Praticamente “morto” na história da filosofia, o Protreptikos voltou à vida em 1869 através do scholar inglês Ingram Bywater, que encontrou fragmentos seus inseridos no texto protréptico (exortativo) do neopitagórico assírio Jâmblico de Chalcis.

Na edição de 2002 sobre a qual me baseei, são dispostos discriminadamente os três pedaços que nos restaram, pedaços que, se não nos permitem o pleno contato com o discurso original, ao menos nos possibilitam um vislumbre muito substantivo, no qual é inevitável a leitura de passagens impressionantes e iluminadoras.


O primeiro achado

Por mais de mil anos, pouco mais se teve acesso à exortação aristotélica do que dois parágrafos, presentes na imensa coleção de ditos da sabedoria antiga que João Stobeu arranjara para o seu filho (hoje em dia publicada sob o título Anthology ou Florilegia), e não se sabia a origem exata de tais trechos.

Só na segunda metade do séc. XIX, com o grande boom da filologia clássica, é que scholars alemães lançaram a hipótese de que os fragmentos seriam parte do Protreptikos perdido de Aristóteles. Eis que no fim do mesmo século, são descobertos diversos papiros em Oxyrhynchus, Egito, em um sítio que teria sido local de reciclagem de papiros. Entre eles, os fragmentos POxy666, um bloco do que aparentemente teria sido um livro muito caro, confeccionado no século II depois de Cristo, com toda a obra transmitida por Stobeu, e que confirmou serem aqueles parágrafos originários do Protrepticus (além de reforçarem a idéia de que Stobeu estaria se baseando numa antologia anterior à sua).

Nesses dois breves parágrafos que sobreviveram à história, Aristóteles ataca a valorização dos bens materiais e defende a valorização da alma e da busca pela sabedoria.


O segundo achado

Jâmblico de Chalcis foi um filósofo e professor assírio que viveu entre os séculos II e III d.C. De perfil neopitagórico, compôs o De Secta Pythagorica, cujo 2º volume constituía o seu própro Protrepticus, onde expunha diversas passagens de Pitágoras, Platão e Aristóteles, embora sem nunca citar suas autorias. A hipótese de alguns destes trechos serem parte da obra perdida do estagirita só foi ser efetivamente investigada em 1869, a partir do jovem scholar inglês Ingram Bywater, e hoje muitos especialistas concordam com a reconstrução (embora ainda haja dúvidas na hora de delimitar quais palavras são de Iâmblico e quais são do próprio Aristóteles).

Exponhamos brevemente tais fragmentos:

No primeiro deles, Jâmblico, já tendo parafraseado Pitágoras e Platão, parte para uma seção repleta de passagens do grande estagirita. Começamos com algumas afirmações notáveis (tradução minha a partir do inglês):

Toda natureza, como se tomada de razão, não faz nada por acaso, mas tudo por algum sentido, e a natureza dedica-se mais a banir o fortuito daquilo que é por algum sentido do que se dedica às artes (technai) – porque as artes são na verdade imitações da natureza.

Ora, essa pode ser uma das passagens mais platônicas do corpus aristotélico!

Em seguida, ele corrobora a noção de seu mestre sobre a alma; de que o corpo existe em razão da alma, e que ela contém em si duas partes: a racional e a irracional, esta por sua vez existindo em razão daquela, com seu fim àquela. As coisas autônomas são sempre superiores às coisas dependentes (“como escravas”)

A verdade é que irá se perceber nestes escritos de Aristóteles que a base sobre a qual gravitam suas exposições é o princípio básico e inescapável de que, como ele diz:

o que é inferior sempre serve em razão do que lhe é superior

Por isso, a contemplação não é boa por si mesma, mas só a contemplação que se dá sobre elementos de ordem e princípios universais. Se a visão se dirige a objetos visíveis, o intelecto se dirige os objetos inteligíveis, superiores àqueles.

Desprovido de percepção e intelecto, um humano torna-se algo muito similiar a uma planta; desprovido unicamente do intelecto, um animal selvagem; desprovido do elemento irracional, mas retendo o intelecto, um homem guarda semelhança com um deus.

É sobre tal passagem que Jâmblico exorta o leitor a observar o reino de Deus e das divindades jamais pelo fim prático, jamais pela subserviência às nossas volições. O “sucesso genuíno” vem de dirigirmos nossa mente à Deus.

É o que reforça a passagem aristotélica seguinte:

uma pessoa virtuosa não é de forma alguma sujeita aos caprichos da sorte

Mas não deixemos de lado a exortação ao bem prático e político da vida, diz Jâmblico, já que “nosso diálogo é com seres humanos [não com deuses]” (expressão provavelmente retirada de Platão, Leis V, 732e3).

Sobre o corpo, Aristóteles nos diz que ele é como uma ferramenta para nossa vida; perigosa e, se mal utilizada, causa-nos muito prejuízo.

O conhecimento para administrar a nossa vida? A Filosofia. Ela é a “sabedoria autoritária”, pois domina inevitavelmente todos os saberes, todas as ciências, todas as técnicas. No que alguns dizem ser uma réplica direta à filosofia de Isócrates, Aristóteles afirma:

Como alguém poderia reconhecer o discurso se não conhecesse as sílabas?

Não é exceção a arte de legislar. A lei é uma forma de sabedoria, e baseia-se nela, assim como a autoridade.


Ora, então, o que nos impede de filosofar? A filosofia é uma atividade fácil, mesmo que desprovida de retorno material. Ela não precisa de ferramentas nem de locais especiais – só precisa do pensamento e da inteligência. Se ela é a mais simples e mais superiora das artes, e se é por ela que buscamos de forma mais pura e intensa a sabedoria e o conhecimento, coisas essenciais à vida humana, nada mais resta a Aristóteles do que afirmar:

É escravidão desejar [simplesmente] viver ao invés de viver bem.

A aquisição da sabedoria é muito mais fácil do que a de quaisquer outros bens. Além disso, a sabedoria é também a virtude mais desejável, melhor que todas as outras virtudes particulares. Para explicar isso, Aristóteles expõe mais exaustivamente algumas noções (platônicas) sobre a composição da alma. Não só o homem tem uma hierarquia em sua essência, mas, dentro da própria alma, há também a parte que manda, possuidora da razão e do intelecto, e a parte que obedece. O que efetivamente somos é a parte racional, afirma o estagirita.

Função suprema do homem = saber a verdade

Funções menores = o prazer, a saúde, etc.

Diz Aristóteles:

A sabedoria não é produtiva, pois o fim precisa ser melhor do que a coisa que vem a ser, e nada é melhor que a sabedoria, exceto a virtude e o sucesso – e nenhum destes é um fim distinto dela.

Raciocina Aristóteles deste modo: viver é desejável por causa da presença da percepção, e a percepção é um tipo de conhecimento, e é porque a alma pode conhecer que nós desejamos viver. Logo, a sabedoria é a virtude mais desejável pelo ser humano (veja como ele exalta a superioridade da visão sobre os outros sentidos no primeiro parágrafo da Metafísica)

Mesmo as pessoas mais ambiciosas não aceitariam ter muitas posses e prazeres imediatos se tivessem que se privar de sua sanidade. Aristóteles dá o exemplo do sonho, que é por vezes algo prazeroso, mas não desejável em si, porque forma imagens falsas da realidade. E o medo da morte, por sua vez, decorre do medo do que não se conhece e que é inevitável. Daí o nosso prazer e contentamento para com tudo aquilo que nos é familiar – seja uma coisa ou uma pessoa. O que é claro e conhecido é para ser amado (agapeton – o amor intelectual)

Mesmo na vida mais duríssima, “seria ridículo”, diz Aristóteles, não manter-se em direção à sabedoria. Somente o viver bem é superior ao simples viver (não veremos ecos desta concepção no cristianismo, que condena o suicídio?).

Ainda sobre a o prazer pela verdade, o estagirita ressalta que a beleza corporal só nos maravilha porque nossa visão é limitada. Não podemos enxergar a má composição das pessoas. Para quem tem um vislumbre do eterno, essas coisas invejadas pelas pessoas parecem muito tolas.

Desde o início, somos naturalmente construídos como se tivéssemos de ser todos punidos, como falam nos ritos de iniciação. Pois há um dito inspirado dos antigos que diz que a alma “paga penalidades” e que vivemos para a reparação de certos grandes pecados.

A conjunção da alma com o corpo parece ser tal penalidade. (Aristóteles conta-nos que os tirrenos muitas vezes torturavam os prisioneiros acorrentando-os a cadáveres, membro a membro, e então a alma parecia se estender sobre aquele corpo!). Por isso é que se diz que “o intelecto é o Deus em nós” e que “a vida mortal contém uma porção de algum Deus” (Hermótimo ou Anaxágoras seria o autor de tais máximas, segundo Aristóteles) – nada mais do que a continuação daquilo que a tradição grega chamava de mikrokosmos.

No próximo post, continuaremos nossa exposição desta obra fantástica e inspiradora.

domingo, 20 de setembro de 2009

O argumento ontológico e as provas de Duns Scotus

Já tratamos acerca do argumento ontológico de Santo Anselmo, de alguns de seus opositores históricos e da pertinente apreciação que lhe faz Mário Ferreira dos Santos. Agora, apresentaremos um resumo da leitura do filósofo brasileiro sobre como o escolástico Duns Scotus tira proveita do argumento anselmiano para construir suas provas da existência de Deus, do ser infinito.


Ao começar a sua exposição das provas escotistas, Mário reafirma a noção dos escolásticos e do islâmico Avicenna de que o objeto primeiro do conhecimento é o Ser (a Unidade, o Um).

Diz Mário na página 152 do Homem Perante o Infinito:

Não há nenhuma objeção normal à existência do Ser, porque não aceitá-lo seria afirmar o nada absoluto, o qual já estaria negado pela própria afirmação que dele se fizesse.


Ora, tal nada mais é do que uma reafirmação de um argumento tradicionalíssimo, que vem desde Parmênides, um dos avôs da Filosofia. Abaixo, exponho duas das passagens mais importantes da história do pensamento ocidental (tradução minha a partir de uma tradução inglesa):

Fragments, VIII, 1-12:

Só resta um caminho, que é dizer que [o ser] é (estin).
Nele há vários sinais de que o que é, é incriado (ageneton) e indestrutível (anolethron),
pois é completo (oulomeles) , imóvel (atremes) e sem fim (ateleston).
Nem nunca foi, nem nunca será; pois é agora, todo de uma vez, um contínuo. (nun estin homou pan en, hen, syneches)

Pois que tipo de geração você lhe buscaria? De que forma e de onde ele teria surgido?
Não permitirei que diga nem que pense que ele veio do que não é (me eontos); pois o que não é (ouk esti) não pode ser nem expresso nem pensado. Que necessidade também haveria dele surgir antes ou depois, se procede do nada (ek medenos)?
Desta forma, ele deve ser completamente (pampan) ou não ser.

Fragments, VIII, 19-24

(...)como poderia [o ser] vir a ser (to eon)? Se viesse a ser,
não é, nem é se o será no futuro.
Portanto o vir-a-ser (genesis) é extinto e a destruição (olethros) ignorada.
Nem [o ser] é divisível (diaipeton), pois é todo um só (homoion),
e nem é mais [aqui], pois impediria que fosse coeso (synechesthai),
nem é menos [ali], mas é pleno de ser (empleon estin eontos)

http://philoctetes.free.fr/parmenides.pdf


Insiro aqui também o comentário de um filósofo italiano, Domenico Pacitti, pois o achei mais pertinente do que qualquer comentário que eu fosse fazer (tradução e grifos meus):

O argumento, então, é sublime em sua simplicidade: somente o ser é, pois não-ser não pode ser. O ser é portanto um: a existência colateral do não-ser significaria dois, de onde uma infinitude de divisões teria então surgido. Agora, uma vez que o que pode ser pensado e o que pode ser é a mesma coisa, qualquer pensamento da coisa que não é será impossível. Pois um pensamento daquilo que não é será um pensamento de nada, e por isso nem será um pensamento.

Ou como aponta Mário Ferreira: “só podemos conhecer o que é possível de tornar-se um; melhor diríamos, o que é alguma coisa”.


Mais adiante, o filósofo brasileiro ressalta que a única coisa não evidente a respeito do Ser é a de que ele seja infinito, e é justamente esta questão que mobiliza os teólogos.

Francisco Suárez (renomadíssimo pensador da escolástica tardia), por exemplo, afirma: há alguma coisa, e esse alguma coisa é ser, tem aptidão para existir, incluindo o ser atual, que se revela evidentemente, e o ser potencial, que não existiu mas teve aptidão para existir (como o filho de Napoleão, por exemplo). O ser potencial não é, assim, um puro nada, e tal noção mostra-se consonante à tradição que começou em Parmênides, embora sob um novo aspecto (trataremos mais disso em um post futuro).

Esta exposição é mais do que necessária para compreendermos satisfatoriamente o pensamento de Duns Scotus. Como o próprio Mário faz questão de sublinhar, é impossível uma discussão apropriada da questão sem uma familiaridade mínima com os fundamentos da metafísica que alicerçam a construção filosófica do Doctor Subtilis (cognome derivado, aliás, da sutileza e peculiaridade do pensamento escotista, de acesso muito mais difícil do que o tomista).


Mas, então, o que é o ser infinito para Duns Scotus?

Ora, como já bem demonstramos, o ser infinito não pode ser entendido extensivamente, mas como o ser em sua intensidade mais absoluta.

ser finito = ser contingente = dependente de outro para ser

O ser finito tende para o extrínseco e para a sua finalidade intrínseca, ele “busca perfeições que lhe faltam”, mergulha-se num eterno “querer mais”. Já o ser infinito é um ser perfeito, mais do que isso, oniperfeito, é o ser enquanto ser (e nada mais) de Aristóteles.


O que propõe Scotus é uma via ascensional ontológica, partindo do “ser comum” para chegar ao ser infinito. É evidente, afirma Mário, que, dentre as coisas que conhecemos, há coisas criadas e há coisas incriadas (pois, lembremos, nada advém do nada).

Criadas (por outra) – possíveis, finitas, ab alio

Incriadas (de per si) – necessárias, infinitas, a se

Fica muito claro, assim, que a prova escotista funda-se no princípio da causalidade – um tanto diferente do modo tomista, mas corroborando as suas vias.


Há quem objete contra à prova da causalidade ao admitir uma infinidade de causas. Bem, contra tais objeções, Scotus busca provar três proposições que colocariam a pá de cal sobre a questão. Vamos a elas:

1) Que é impossível uma infinidade de causas essencialmente ordenadas

Se não houvesse uma causa primeira, as causas seriam infinitas. Bem, o infinito numérico, quantitativo, só existe em potência. Ademais, admitida a infinitude causal, não se poderia falar em anteriores e posteriores. Não bastasse isso, a causa desta causalidade infinita seria ainda a primeira e mais perfeita.

2) Que é impossível uma infinidade de causas acidentalmente ordenadas

A causa acidental não suprime a causa primeira. De algum lugar deve ter-se originado a causa acidental primeira ou “primeiras”. Do contrário, teríamos que lidar novamente com o absurdo de causas infinitas.

3) Que mesmo negada toda ordem essencial, a regressão ao infinito segue sendo impossível

O primeiro ser efetivo é existente em ato, pois ele existe por si mesmo. Voltando a Parmênides; um não-ser não pode criar e muito menos criar-se ser.

Alguns acusam esta terceira prova de apriorística. Será mesmo?

Perguntemo-nos: é possível um ser por outrem? Ora, tal é evidente pela experiência. E é possível um ser por si? Se é possível, existe em si mesmo. Se não, voltamos à série infinita de causação. Trata-se, portanto, de uma conclusão plenamente inteligida, a fortiori.


Agora concentremo-nos nas observações mais peculiares de Mário Ferreira sobre o Doutor Sutil.

Segundo ele, Duns Scotus era ao mesmo tempo platônico, avicenista e pitagórico, além de ter aproveitado conceitos da Física de Aristóteles. Lembremo-nos que, para Mário, os pitagóricos teriam sido os verdadeiros grandes pioneiros do conhecimento científico, porquanto eles já afirmarem que a verdade máxima está nos entes necessários.

Tal tradição trespassou a filosofia grega e chegou até os escolásticos, que então se tornaram os responsáveis pela matematização qualitativa do conhecimento, ou seja, não aquela matematização grosseira dos modernos, mas uma matematização "responsável", concreta. Ao contrário destes, jamais os escolásticos perderam a noção de que o conhecimento não é só quantitativo, mas também qualitativo, axiológico, valorativo. Para eles, a quantificação da lógica mostra-se claramente um equívoco, pois o raciocínio tem sutilezas.

Diz Mário nas páginas 162 e 163(grifos meus):

Todas as idéias físicas poderão ser construídas, mas, qualquer que seja o conhecimento, haverá sempre a distinção entre determinante e determinado, entre produzível e produtivo, entre effectibilitas e effectivitas, etc. É trabalhando com tais conceitos, estruturas ontológicas da mathesis [a instrução suprema pitagórica, que nos levaria da esquemática humana às estruturas primeiras da realidade], que Duns Scotus procura construir, e com grande êxito, as suas provas, que se fundamentariam, assim, ontologicamente, de modo necessário e não apenas contingente.


Mário é muito feliz ao resumir a diferença nos tratamentos clássicos da causa primeira: as provas aristotélicas e aquinianas querem provar que “há um motor que é primeiro” e as provas escotistas querem provar (e o fazem) que “há um primeiro que é motor”. A tradição aristotélica de Averroes e Aquino afirma que cabe à física, à natureza, provar a existência de Deus. A tradição anselmiana (e parmenidiana, por que não?) afirma que tal tarefa cabe à Metafísica. Para Duns Scotus, a infinidade de poder e movimento do motor aristotélico não pode provar a infinidade pura e simples do Deus cristão.

Em Aristóteles, temos um ser de infinidade extensiva.

Em Duns Scotus, temos um ser de infinidade intensiva.


O que Duns Scotus faz então é redefinir o argumento de Santo Anselmo, o confirmando. Nas palavras de Mário (p. 166):

Para Duns Scotus, o ser é conhecido por si, e a infinidade não lhe é contraditória, pois é perfeitamente inteligível. Há, portanto, compatibilidade entre a infinidade e o ser, e se a infinidade é uma perfeição possível, o ser supremo é necessariamente infinito.

Ou seja, o que está na mente está no Ser. É “aquele que não podemos conceber outro maior”, como diz Santo Anselmo. Nada pensado pela mente pode ultrapassar o ser.

Ao meu ver, irrefutável.

diagrama_anselmo

domingo, 13 de setembro de 2009

O argumento ontológico de Santo Anselmo - parte IV

ANÁLISE CRÍTICA DE MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

É o argumento de Santo Anselmo assim tão frágil? De modo algum, diz Mário.

Importante ressaltar: é preciso saber de antemão que Santo Anselmo, inaugurador da Escolástica, pertencia à vertente genuinamente (neo)platônica. Para ele o "mundo das Formas" tinha uma importância basilar.


As objeções ao argumento anselmiano em geral dizem que ele prova a realidade apenas da idéia.
Mas que realidade? A empírica, a física ou uma transfísica?

Mário diz que a única realidade que resta ao enunciado de Deus é a transfísica (por isso São Tomás de Aquino criticar no argumento o seu "salto ilegítimo" do lógico para o ontológico).

Deus não está no empiria, sublinha Mário, assim como a ilha perdida de Gaunilon é tal qual comparada ao conhecimento empírico. O Ser não é empírico - o Ser é infinito e não pode ser pensado como não-Ser.

A concepção de um "Ser que nada de maior se pode conceber" é um símbolo da vivência do Ser.
Por mais que tentemos ir além, o mais superior será sempre "o mais superior" - não pode haver algo mais superior que o mais superior. Cada "tentativa", cada concepção superior será sempre um símbolo deste Ser.

Podemos negar a existência de coisas que existem, mas negar o Ser é negar todo o fundamento do qual se participa. É negar a hierarquia das perfeições (ao modo platônico).

Diz Mário na página 91 do seu O Homem Perante o Infinito:
Todo filósofo que levar avante e com segurança o seu pensamento, mesmo ateísta, terá de concordar que todas as perfeições, surgidas no processo do devir, estavam contidas, em máximo grau naquele Ser que não tem princípio nem fim, pois, do contrário, teria que admitir que tais perfeições surgiram do nada.


Duns Scotus
renovou os argumentos de Anselmo e os tornou irrefutáveis.
No próximo post, veremos o que o nosso nobre Mário Ferreira tem a dizer sobre isso.

O argumento ontológico de Santo Anselmo - parte III

A CRÍTICA MODERNA


Refutação de Hellin - em nenhuma proposição o predicado pode ter maior realidade que o sujeito. A prova de Deus não pode depender do predicado a priori "máximo excogitável" (este precisa ser demonstrado a posteriori).
Tais argumentos servem como objeção também às defesas de Leibniz e a Descartes.

Refutação de Muñiz - quem pensa em Deus como o ser mais perfeito que se possa conceber, pensa-o também como realmente existindo. Pensar como existente não significa que realmente exista. A realidade do pensamento confronta a realidade da existência, como ocorre na ignorância dos homens, no desvio de seus atos, etc.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O argumento ontológico de Santo Anselmo - parte II

Abaixo, o resumo parcial da defesa que Mário Ferreira dos Santos faz do argumento ontológico em sua fulgurante obra O Homem Perante o Infinito.


Propter Leibniz

Leibniz diz que, se o Ser necessário não existe, não há ser possível.

Toda a realidade é, ela não tem como não ser.

E mesmo o que nega a realidade, faz parte do Ser.


Todo possível faz parte do Ser, pois se é possível, pode existir como pode não existir. Se existir, sua existência é contingente. PORÉM a sua possibilidade é NECESSÁRIA.

Conclusão: todo possível é necessário, e tudo está no ser.



Diferença entre Ser e Estar

Para algo ESTAR no ponto X e no tempo Y, ele tem que necessariamente não estar no ponto D e no tempo Z, por exemplo. Estar é finito.

Para algo SER, ele não necessita NÃO SER. Ele simplesmente é. Mesmo quando pensado como NÃO SENDO, ele é. Ou seja, a realidade, por si só, já é "positiva". Do contrário, não haveria nada.

Realidade = Ser = existir

Existência = UM (pitagórico) = "positividade"



Propter Locke

Locke dizia que não há um ateu que negue um ser primeiro, eterno e necessário. A diferença entre um teísta e um ateu para ele é que o teísta crê que o Ser é cognoscente, enquanto que o ateu crê que o Ser é "matéria cega" (natureza, etc).

Materialistas, ateus e outros não negam, assim, o Ser eterno, por isso são monistas.



Segundo Mário, pensar outro mundo, outras realidades sem a nossa lógica não refuta o argumento, pois "o que quiser pode ser imaginado, mas não se podem negar as leis do Ser". Por mais que a Verdade "mudasse" de acordo com uma "nova ordem", pois a Verdade desta ordem é desta ordem, pois a Verdade está no Ser (mesmo no mundo mais diferente e/ou alienígena possível, a Realidade É).