quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A Consolação da Filosofia, por Boécio

Boethius

Boécio (480-524 AD) foi uma importantíssimo filósofo neoplatônico. Considerado por muitos como a “ponte” entre a filosofia antiga e a medieval, ajudou a construir o pensamento que dominaria a Europa pré-escolástica (séc. V ao séc. XI). Segundo o grande historiador Edward Gibbon, Boécio foi “o último dos romanos que Catão ou Túlio poderia ter tomado como seu compatriota”.

Nobre de sangue eminente, serviu como cônsul e senador no reino ostrogodo do ariano Teodorico, que lhe tinha em grande estima. Entretanto, ao combater os maus elementos da política romana, acaba ganhando um punhado de inimigos, que começam a tramar a sua queda. O rei passa a mostrar sinais de intolerância; envia o Papa João I a Justino em uma humilhante missão a Constantinopla, depois o prende para morrer de fome e inanição. A partir de então Teodorico escutaria as acusações contra Boécio, segundo as quais este estaria por trás de uma conspiração contra o seu poder imperial. Nem a famosa eloqüência de Boécio o salvaria agora. O Senado o confina em uma masmorra em Ticinum (moderna Pávia) e confisca suas propriedades.

Após muitos meses de cárcere, durante os quais comporia a sua famosa obra, seria torturado e morto.

Contemporâneos de Boécio, como Prisciano, Cassiodoro e Enódio tinham-no como o homem mais intelectual de sua época. Profundamente versado nas obras dos fílósofos gregos, chegou a traduzir algumas para o latim. Por séculos, os medievais só puderam conhecer Aristóteles quase que exclusivamente por intermédio das traduções e comentários de Boécio. Possuía também grande talento para matemática, ciência, engenharia prática, e seu trabalho sobre música ecoaria no ocidente por séculos.

Após sua morte, foi tomado como mártir da fé ortodoxa, sendo canonizado por São Severino. Muitos trabalhos de teologia doutrinal lhe foram atribuídos, mas há uma discussão moderna em torno disso (há quem duvide até do seu cristianismo).

A obra

http://etext.virginia.edu/latin/boethius/boephil.html

A Consolatione Philosophiae era o vade mecum filosófico da Idade Média. Sua influência e popularidade só poderia ser comparada à De Officis de Cícero e, posteriormente, à Imitação de Cristo de Kempis. Foi um dos primeiros livros impressos na Europa após a revolucionária invenção de Gutemberg.

Quando as rudes línguas européias começaram a ser articuladas em prosa, surgiram versões do livro de Boécio no vernacular. Destas primeiras traduções, a do rei Alfred o Grande foi a primeira, seguida um século depois por uma versão literal no dialeto alemânico do old high german, no famoso monastério de São Gall, pelo monge Notker. Houve versões também em provençal antigo, em quatro edições francesas nos séc. XIII e XIV. Na Inglaterra, Geoffrey Chaucer fez uma tradução em prosa, sendo seguido por muitos outros, até mesmo a rainha Elizabeth I, em cuja época já havia versões em italiano, espanhol e grego. Thomas More mantinha uma cópia consigo quando na prisão, chegando até mesmo a compor uma versão própria, identificando-se com a angústia pela qual passara Boécio.

Sua influência na literatura européia é imensa. Há traços da obra em Beowulf, nos poemas de Chaucer, em Gower, em Lydgate, em Spenser, em Dante e Boccaccio.

Boécio, confinado em sua masmorra, conseguiu expressar de forma belíssima o confronto entre a sua ardente aflição face à iminente morte e a profunda sabedoria que sua alma ainda mantinha. Compondo um memorável diálogo entre a Dama Filosofia e o conflituosa Mente, demonstra como a primeira, iluminada pela verdade divina, é capaz de aplacar toda a dor existencial que sobrevenha à segunda.

É, sem dúvidas, uma obra para todos os tempos.

Sobre a tradução de Alfred, o Grande

A versão estudada aqui é a de Alfred, o Grande (849-899), rei dos anglo-saxões e um dos maiores responsáveis por tornar o livro popular na alta Idade Média. Além de grande líder militar e político, tendo impedido a invasão viking e unificado os reinos saxões, também empreendeu traduções de importantes obras, como Pastoral Care, Orosius e, claro, The Consolation of Philosophy of Boethius.

A religião e o aprendizado eram fundamentais para Alfred, uma espécie de “Carlos Magno da Bretanha”, amante dos livros e admirador dos intelectuais. Diante da ignorância na qual tinha mergulhado o seu povo após os terríveis confrontos com os vikings, sabia que a educação era fundamental para que a região voltasse a prosperar. Em um trecho da Consolação, Alfred lamenta muito a decadência intelectual e cultural na qual havia caído sua amada terra.

Segundo o monge Asser, biógrafo de Alfred e homem de confiança em seu projeto cultural, uma das primeiras atitudes do governante foi fundar uma court school, ao modelo das escolas palatinas de Carlos Magno. Ambos tiveram lá suas dificuldades para aprovar a idéia entre os nobres de rude espírito guerreiro. Seguindo os passes do grande imperador franco, Alfred também buscou reunir eruditos de outras partes da Europa, tamanha a decadência dos clérigos sábios em seu reino.

Apesar de uma tarefa claramente prazerosa para ele, a tradução da Consolação não deve ter sido nada fácil. O conhecimento de latim era muito limitado, e o próprio latim já havia sofrido suas mudanças até então (Asser tinha que ler em voz bem alta e explicar diversas questões).

Alfred não estava focado na cópia, mas na transposição do entendimento da obra para o seu povo, e nisto teve sucesso, pois seu inglês, segundo os filólogos, embora desprovido de arte e muitas vezes deselegante e falho, é suficientemente claro quanto ao sentido. Além disso, que referências de prosa em inglês tinha Alfred à época? Afora a tradução inglesa da Bíblia, todo o esforço literário que lhe precedera estava em verso (o qual floresceu muito ao norte da ilha). Bem sabia Alfred destas limitações, tanto que fez adaptações que achou necessárias, até mesmo omitindo e adicionando trechos (e aqui se revela a parte mais interessante da versão de Alfred). Por isso, muitos consideram o grande rei da Saxônia Ocidental como o primeiro autor de prosa literária da história inglesa.

O abade Ælfric, cerca de um século depois, reconhece o seu débito para com o rei Alfred; através de suas traduções, pôde ele próprio construir uma prosa inglesa mais suave e clara, mais elegante e mais repleta de nuances.

Voltando à versão de Alfred, é nitido o tom cristão impingido à obra, citando diversas vezes Deus, Cristo, anjos, demônios, etc, simpatizando com o lado católico de Boécio (que não é particularmente mostrado nessa obra) e desaprovando o arianismo de Teodorico. Com freqüência, Alfred até se esquece de sua tarefa de tradutor, revelando ainda mais o seu espírito e a energia com a qual abraçara a obra.

“Sempre foi meu desejo viver honradamente enquanto vivo, e, depois da minha morte, deixar para aqueles que devem vir depois de mim a minha memória em boas obras”

— Alfred

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A versão de Alfred está dividida em 4 livros e 42 capítulos, alternando cada trecho de prosa com um trecho poético. Decidimos, para facilitar a síntese, dividi-la em tópicos abordados.

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Introdução

O rei Teodorico era cristão mas com forte inclinação ao Arianismo. Prometeu aos romanos a amizade e o respeito, mas no fim incorreu em absurdos, como a morte do próprio Papa João. Alfred conta-nos a respeito da eminência de Boécio e de como este se abatia com a desonra que Teodorico representava à história dos césares. Boécio secretamente clamara por ajuda do imperador de Constantinopla, esta fora a razão de seu cárcere.

Enquanto Boécio lamenta a sua sina e o sumiço de sua alegria (“como pode ser feliz o que não reside em felicidade?”), aparece-lhe a Divina Filosofia, o espírito da Sabedoria, que o ergue e o incita a observá-la.

“Não és tu o homem que foi nutrido e ensinado em minha escola? Mas desde quando tu te afliges tanto com estas preocupações mundanas?”

A Filosofia clama contra o mundo sensual, e a Mente (Boécio) diz ter reencontrado sua “mãe de criação”, a Sabedoria, que lamenta:

“Ai de mim, quão profundo o abismo no qual a mente labora quando agitada pelas durezas da vida! Se ela esquece da própria luz, que é uma alegria eterna, e corre para a escuridão externa que são as preocupações mundanas, como agora faz esta Mente, nada mais ela conhece, exceto o sofrimento.”

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Boécio clama pela salvação

Boécio lamuria-se pela fortuna dos maus e a desgraça dos que buscaram a sabedoria. Depois, canta a Deus uma belíssima prece poética, louvando o poder divino e sua ordem, a qual só os homens ousam desobedecer.

“Ó, meu Senhor, tu que olhas por todas as criaturas, em tua amorosa bondade olhe agora por esta terra miserável, e também por toda a humanidade, pois ela agora se debate como as ondas deste mundo.”

A Filosofia logo põe Boécio de frente para a verdade:

“Ninguém te levou ao erro; foste tu mesmo, por tua própria desatenção”.

Segundo ela, não se poderia esperar isso de “um dos cidadãos da Jerusálem celestial”, e reitera que “nenhum homem é jamais banido, a não ser que ele mesmo tenha assim escolhido”.

A pobre Mente diz ter noção de que “tudo vem de Deus”, ao que a primeira responde: “Como podes então, sabendo o início, não saberes também o fim?”

A Filosofia pergunta à Mente se ela conhece a si mesma. “Sei que pertenço aos homens vivos e inteligentes, embora fadados a morrer”, e nada mais sabe a Mente de si – esta é a causa de sua melancolia. Segundo a Filosofia, não crer que a fortuna seja algo independente de Deus já é um bom começo para a cura, pela qual ela se responsabiliza.

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O erro de Boécio

A Filosofia diz a Boécio que o que ele antes tomava por felicidade não era bem felicidade. Os prazeres do mundo enganam os homens.

“Pensas tu que seja algo inédito ou raro o que veio a te acometer, como se jamais houvesse molestado outro homem?(...) Se pensas que é culpa tua que tua prosperidade mundana tenha se ido, então te equivocas, pois seus caminhos também se equivocam. Em ti ela só cumpriu com sua própria natureza, e por sua mudança fez-se conhecer a instabilidade que lhe é natural. (...) Aquela mesma prosperidade, a perda sobre a qual sofres, teria te deixado em paz tivesses tu a recusado; e agora ela te abandonou por sua própria vontade e não pela tua, de tal modo que nenhum homem a perde sem sofrimento.”

Como pode um homem se prender à riqueza quando já encontrou a sabedoria?

Como Boécio ousou imaginar que não seria afetado pelas mudanças do mundo, que sua vida e suas posses permaneceriam intocáveis?

“Como poderias tu estar no meio deste estado de mudanças, sem sentires também algum mal através da adversidade? O que mais os poetas cantariam sobre este mundo [que não isso]?

“Por que me culpas, ó, Mente? Por que estás irritada conosco? No que te ofendi? De fato tu estavas desejosa de mim, não eu de ti! Tu me colocaste na lugar do teu Criador quando nos procuraste para aquele bem pelo qual Ele é que tu deverias ter procurado. Tu dizes que eu te traí; mas, pelo contrário, posso dizer que tu é que me traíste, já que pelo teu desejo e ambição o Criador de todas as criaturas irá me abominar. Tu és, portanto, mais culpado do que eu, tanto por conta do teu próprio desejo ímpio, e também porque, através de ti, não posso realizar a vontade do meu Criador. Pois Ele me concedeu a ti para ser aproveitado de acordo com Seus mandamentos, não para realizar a vontade da tua injusta ganância.”

A mente confessa sua culpa, coberta de remorso.

“Eu não quero que tu te desesperes, mas que te envergonhes do teu erro”, ressalva a Filosofia, “pois aquele que se desespera não tem esperança, enquanto o que se envergonha está no caminho do arrependimento”

“E o que são as riquezas mundanas senão um aviso da morte? Porque a morte vem com nenhum outro propósito que não seja tirar a vida.”

A Filosofia canta sobre a inconstância das coisas naturais.

Boécio reconhece que o que tinha em sua vida comum não era a verdadeira felicidade.

A Filosofia ressalta o enorme valor que Boécio tem para sua esposa, que tudo mais ela esqueceu enquanto sofre pelo seu destino. Além disso, Boécio está vivo e com saúde; nenhuma aflição insuportável ainda lhe desceu sobre os ombros para se entregar dessa forma.

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No próximo post, continuaremos expondo o resumo dessa divina obra.

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