terça-feira, 11 de maio de 2010

Trivium – As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica, parte II

Natureza e função da linguagem

Função = comunicar pensamento, volição e emoção.

Humanos comunicam-se não só por interjeições, como os animais. Porque racionais, também utilizam a linguagem. Segundo Miriam, os entes puramente espirituais, como os anjos, comunicam pensamento sem um meio físico, portanto não se pode chamar de “linguagem”.

2 modos de comunicação:
Imitação - artes, sinais, gestos, etc.;

Símbolo
- signo arbitrário convencionado, como a linguagem, ou natural, como uma nuvem. Os símbolos podem ser:
  • permanentes (culturas, línguas);
  • temporários (sinais adotados por um time, cores da camiseta, senhas, etc.)

  • Valem universalmente paras os homens – especiais (áreas científicas);
  • Ou são peculiares e requerem tradução – comuns (línguas)
Para Miriam, uma língua morta (como o latim) está, por isso mesmo, menos sujeita a mudanças e possui mais facilidade de ser apreendida. (o tradutor da edição brasileira faz a ressalva de que a morte de uma língua não a faz deixar de ser língua, e, portanto, corruptível - vide traduções erradas de textos antigos e toda a discussão filológica clássica).


Linguagem = comunicar por símbolos.


Quem trata da matéria - ortografia (e a fonética)
Quem trata da forma - semântica
Os grandes instrumentos que possibilitam a quase ilimitada capacidade humana para se comunicar: cordas vocais, língua, palato, dentes, lábios. Isso torna possível a expressão do vasto pensamento humano. Miriam faz uma breve explicação sobre matéria e forma, gênero e espécie à luz aristotélica.
Toda existência é individual. Mesmo quando tentamos imaginar a classe cavalo, pensamos em um cavalo individual.




Segundo Miriam:
Um nome comum ou uma descrição geral deve representar uma essência ou uma natureza de classe que é intrinsecamente possível, ainda que não precise necessariamente existir. De outro modo, seria absolutamente destituído de sentido, tal como um círculo quadrado ou um quadrado triangular.

A geração de um conceito




Intelecto –> abstração –> conceito
Imaginação – área de encontro entre sentidos e intelecto.
Memória sensorial (senso sintetizador, instinto) – fantasmas dos quais o intelecto abstrai o comum e o necessário, a essência, o conceito geral ou universal.
Um conceito geral existe apenas na mente, mas com fundamento fora dela. Portanto, como aponta Miriam:
um conceito não é algo arbitrário, ainda que a palavra o seja. A verdade tem uma norma objetiva no real.
Parafraseando Aristóteles (a adição final em destaque é na verdade contribuição de Leibniz): “Não há nada no intelecto que já não estivesse primeiro nos sentidos, exceto o intelecto mesmo.”

Através dos sentidos, o intelecto obtém da natureza a matéria-prima para o pensamento. O conhecimento abstrato é mais claro, ainda que menos vívido do que o conhecimento sensível.

(Thomas More chega a defender em seu The Confutation of Tyndale’s Answers a utilização de estátuas e pinturas pela Igreja, mais do que as palavras, porque a captação daquelas é mais imediata e universal)


As dez categorias do Ser (Aristóteles)

Ou praedicamenta –> características que podem ser afirmadas sobre o sujeito.

(O termo foi inaugurado pela tradução para o latim feita por Boécio da Eisagoge eis tais kategorias - ou simplesmente Isagoge, como ficou conhecida - obra de Porfírio (232-304), discípulo de Plotino (Porfírio e Boécio foram o ponto de partida para a discussão medieval acerca dos universais)).
Todo ser existe em si mesmo –> categoria da substância (1)
e/ou em outro –> categorias do acidente (9).
1 – Substância
2 – Quantidade (magnitude)
3 – Qualidade
4 – Relação
5 – Ação
6 – Paixão (recepção da ação de um agente)
7 – Quando
8 – Onde
9 – Postura
10 – Estado
Predicação
  • Substância
    Predicado é o próprio sujeito (“Maria é um ser humano”);
  • Quantidade, Qualidade e Relação
    Predicado existe no sujeito (“Maria é alta”; “Maria é esperta”; “Maria é mãe de Ana”);
  • Ação, Paixão, Quando, Onde, Postura e Estado
    Predicado existe extrinsecamente ao sujeito (“Maria foi ferida”; “Maria se atrasou”)

Individuação = limite = existência material (os graus de individuação dependem da classe de seres. P. ex., uma pedra difere muito menos de outra do que um homem de outro).

Acidentes = notas

Conceito empírico = apreensão intelectual indireta de um indivíduo. O intelecto conhece objetos individuais apenas indiretamente nos fantasmas, porque indivíduos são materiais, com uma exceção: o próprio intelecto, porque ele é espiritual; pode conhecer a si mesmo. (como o materialismo explicaria a auto-reflexão?)


Os objetos artificiais, criados pelo homem, possuem duas essências:
Matéria (madeira, ferro)
Forma (cadeira)
Conceito composto = constructo (advogado, atleta). Definição que adiciona acidentes a um conceito simples (homem) para delimitar classes acidentais. Na língua inglesa, um constructo geralmente é simbolizado por uma única palavra. (N’uma língua como o alemão, ele costuma ser simbolizado por uma palavra composta. “Tanque” é Raupenschlepperpanzerkampfwagen, e isso tudo foi encurtado para panzer.)


Dimensões da linguagem
Dimensão psicológica = conotação (“luz direta”)
Dimensão lógica
= denotação (“luz difusa”)
Por exemplo, home e house aproximam-se na definição lógica, mas home é uma palavra muito mais rica emocionalmente.

Palavras abstratas, como os conceitos, são mais claras e menos vívidas do que as concretas. Contudo, ressalta Miriam, ao comunicar conhecimento abstrato, é necessário o emprego de uma hábil ilustração concreta. A literatura obviamente utiliza muito mais palavras concretas, muitos sinônimos, quebras e nuances. Por isso, a composição lógica é facilmente traduzida, enquanto a composição psicológica raramente o é.

O som de uma palavra pode expandir uma dimensão psicológica.

Expressões idiomáticas são contextualizadas, perdem o sentido em outra cultura.

Combinações de palavras enriquecem (ou empobrecem, se conflitantes) a dimensão psicológica. A alusão é eficaz quando o público está ciente, é culto, etc.

A palavra é mais sujeita à ambigüidade do que um símbolo matemático, químico, musical, entre outros. A ambigüidade pode surgir:
1) da história das palavras – homônimos, sons, símbolos culturais (a suástica, p. ex.).
2) da imposição e da intenção – predicação, reflexão, etc.

Primeira imposição
– palavra como “janela”.
Imposição zero
– palavra sobre si mesma (ortografia, fonética).
Segunda imposição
– palavra usada reflexivamente com referência ao signo sensível e ao significado. A Gramática é a ciência da segunda imposição. “Pular é um verbo” é a reflexão da linguagem sobre si mesma.

Primeira intenção
(indivíduos essenciais) – uso predicativo comum do termo para se referir à realidade (a um indivíduo ou a uma essência).
Segunda intenção
(essência) – uso reflexivo de um termo para referir-se a si mesmo como um termo ou conceito, aquele pelo qual conhecemos e não o que conhecemos. “Cadeira é um conceito”; ora, não podemos sentar num conceito. “Uma cadeira é um conceito” erra por isso. A segunda intenção é restrita à lógica.

3) Da natureza do fantasma
  • I - imagem que a palavra evoca. Extensão ou designação (nomes próprios se repetem, p. ex., por isso que também precisamos de outros dados sobre as pessoas).
  • II - nomes comuns pretendendo a universalidade (“oceanos” são cinco, “amigos seus” são o nº deles, “montanha” são todas as montanhas que existiram e existirão).
  • III - tanto nome comuns quanto nomes próprios podem adquirir muitos significados, muitas intensidades, conceitos.

Intenção ≠ Intensão
Intenção –> forma do uso
Intensão --> soma de atributos contidos (predicados) em uma palavra
Nomes próprios podem significar várias coisas (Getúlio Vargas pode ser tanto o presidente, como a rua, como a praça, etc. Esta aí uma ambigüidade na intensão).
Nome comum - usado primeiramente em intensão (apesar de ter extensão);
Nome próprio - usado primeiro em extensão (apesar de ter intensão).
Há também a ambigüidade deliberada, mormente nas comunicações estéticas e literárias. A ironia é uma forma de ambigüidade deliberada na intensão, pois lida com o sentido. O mesmo com o trocadilho (segundo Miriam, hoje em dia uma forma trivial de humor, embora Aristóteles, Cícero e os mestres retóricos da Renascença o tivessem em alta estima; Platão e os dramaturgos gregos também o usavam de uma maneira séria).

Metáfora - estabelece analogia entre a imagem literal e a imagem figurada. Para Aristóteles era como uma proporção entre duas razões:
A:B :: C:D –> A é C.
O, wild west (A) wind, thou breath (C) of autumn’s (B) being (D).” –> “The moon (A) is a boat (C)”.
(B – moves through the sky) (D – moves through the water)
Metáfora morta é aquela que, de tão usada, deixa de ser metafórica, só admitindo o sentido figurado. “Tribulação” foi uma metáfora tão boa que veio a perder o seu sentido original (debulhação). (Segundo o tradutor da edição brasileira, a metáfora candidate vinha de cândido, vestido de branco – os postulantes ao senado romano utilizavam togas brancas que deveriam simbolizar a sua “ausência de manchas”. Em inglês, clothed tem também o sentido de oculto, coberto, dissimulado, indo de encontro ao sentido original, o que fez a metáfora tornar-se uma ironia sarcástica: candidate clothed in white.)


No próximo post, seguindo o resumo da obra, começaremos a penetrar no bojo da Gramática Geral, tratando principalmente das categoremata e sincategoremata.

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